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Opinião


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A loba
25/12/2012 12:53:06
Era novembro, ou dezembro... fim de ano, não me lembro exatamente datas... foi quando em noite chuvosa, daquelas em que a gente prefere estar quieto em casa, no calor de uma cama quente e aconchegante... a vi.

Estava navegando há horas, cansado, sentindo frio até os ossos... roupa molhada, alma molhada, tudo uma tristeza só. E nada parecia querer ajudar, poia a chuva que se mantinha fina e constante, resolvera engrossar um pouco nos últimos minutos.

Isso era o sertão do Araguaia, lugar feito sob medida para homens de coragem, ou para malucos como eu que nem tanta coragem assim tinha, mas a curiosidade pelo sertão, somada a um amor insano ao rio e sua natureza, compensavam um pouco essa ligeira deficiência. Senão não estaria ali, navegando solitário na noite escura e sombria. Precisava me livrar dessa mania de amar loucamente, sem cuidados ou limites... rios e fêmeas complicadas... precisava mesmo...

Deixara a barra do rio das Mortes cedo, por volta das 09 horas da manhã e vinha cortando rio com o ronco suave do confiável motor Mercury de apenas 15hp, mas que na canoa leve de seis metros era bastante eficiente. Quando anoitecia já vencera a barra do Cristalino e apesar da chuva que vinha caindo desde as 17:00h, resolvi tocar em frente e ali estava, com bons quilômetros ainda por fazer, se realmente pensava chegar a Luiz Alves na madrugada desse dia.

Mas a chuva engrossava e isso tornava a navegação difícil e perigosa. O rio, subindo, trazia paus e não raro árvores inteiras podiam ser vistas, descendo aparentemente vagarosas ao sabor da corrente pesada do grande Araguaia. Deviam ser umas 21 ou 22 horas, não mais que isto e a mata, na beira do rio estava calada e soturna. Só se ouvia o marulhar dos pingos, numa sinfonia monótona e constante. Aves, bichos, todos recolhidos, escondidos do aguaceiro. Meu filho costuma perguntar... “Pai, como você consegue enxergar na escuridão”? Na verdade, acho que é mais intuição que visão... sensibilidade... uma simbiose perfeita entre homem e natureza... sei não, mas talvez seja isto.

E foi nesse contemplar que a canoa bateu no pau. Para minha sorte, o susto foi bem maior que o estrago, na verdade quase nenhum, a não ser um amassado no ponto onde houve o choque... mas quase me jogou para fora do barco. Reduzi o motor e busquei um ponto qualquer onde encostar... não sabia a possível natureza dos danos e afundar numa hora dessas não agradava nem pensar...

Vi o que pareceu ser um barranco baixo a uns 100 ou 150 metros de distância, com alguma areia e uma boa área aberta e para lá me dirigi lentamente, o olhar atento á uma possível entrada de água na canoa... mas parecia não ter ocorrido rasgo algum no casco... e assim encostei. Cortei o motor, desci da canoa e a puxei o máximo que pude para cima da areia molhada. Não havia razão para maiores preocupações, de fato não houve rompimento do casco, apenas o amassado feio, que poderia ser reparado. Ótimo.

Bom, já havia parado mesmo... melhor deixar a chuva passar e aproveitar para comer alguma coisa, descansar, esticar as pernas... quem sabe pescar um pouquinho. Me certifiquei de que o barco estava firmemente amarrado a um ponto firme, a raiz de uma árvore grossa... tirei para fora os utensílios de cozinhar e comecei a preparar um arroz rápido que pretendia comer com carne e tomates, que havia comprado cedo, ainda em São Félix, e fiquei entretido nessa atividade até sentir o cheiro da comida quente e gostosa.

Comi fartamente - só então reparei o quanto estava faminto -, sobrara comida, que coloquei na panela... lavei os demais utensílios, desmontei o pequenino fogareiro a gás, guardei tudo no barco novamente. Peguei um bocado da sobra do arroz e com uma pequena varinha fiquei tentando pegar algum lambari ou qualquer peixinho que me servisse de isca... demorou mais do que eu esperava, mas acabei pegando uma pequena sardinha, que logo virou isca para um bonito mandubé e, logo a frente, para uma bicuda de tamanho incomum. Pronto, já tinha isca suficiente para pescar a noite inteira, se quisesse.

Retirei a vara pesada da canoa, guardei as outras duas, pequenas, montei a boa carretilha de pegar peixe graúdo e, sentado na cadeira traseira fiquei pescando por um tempão, apenas dando comida para candiru e piranha, que nem com a noite fechada davam trégua. E dizer que o Araguaia já fora tão bom de pesca...

E assim, acabaram-se as iscas e peixe grande nenhum quis ver quem era o doido que pescava numa noite feia daquela... fiquei a "ver navios"... afinal, nem sempre é dia do pescador... rsr...

Desmontei a vara, guardei tudo e já pensava em ir desamarrar a canoa e reiniciar a viagem quando a vi, ou melhor, pressenti. Acho que devo ter captado um ligeiro movimento na borda do mato, porque ver ou ouvir alguma coisa não teria sido possível... peguei a lanterna potente e foquei o ponto. Brilharam dois olhos vermelhos... ufa! Onça não era. Alguma raposa, porco... quem sabe... Brilharam e sumiram. Fiquei quieto, mas toquei a boa e velha .380 que levava à cintura, pronta pra uso. Me senti mais confortável e seguro...

Fiquei mais algum tempo ali, cismando... o que teria sido? Foi quando novamente houve o movimento... fiquei quieto, resistindo à vontade de acender o foco... até que vi a sombra a uns quarenta, talvez menos, metros, já na areia. Foquei e para minha surpresa, me vi diante de um lindo exemplar de lobo verdadeiro. Pretão, grande... olhos desconfiados... orelhas e cauda abaixados o que não era lá muito bom sinal, acho... mas dessa vez ele não correu. Ficou lá, indeciso, aparentemente sem saber o que fazer...

Foi quando vi mais movimento... próximo ao lobo, porém mais atrás. Eram dois filhotes... ora, não era lobo, mas sim uma loba... e com dois filhotes. Agora compreendi porque não fugira... e nem fugiria. Aliás, se eu tivesse algum juízo, quem devia cair fora era eu. Nenhuma fêmea, com filhotes, é "flor que se cheira"... mas e quem disse que tenho juízo? Fiquei ali, fascinado... admirando o belo animal e seus filhotes...

Não sei quanto tempo... a chuva escorria do meu rosto e da capa... lembrei que sobrara algum resto de comida... lentamente, não desejando assustá-la, me virei e peguei a panela, onde jogara todo o restante da "janta", e joguei primeiro um pequeno pedaço de carne... o mais longe que consegui. Ela não fez a menor intenção de se mover, mas os filhotes não tinham a mesma precaução... foram andando até achar a carne. Comeram. A loba, atenta a tudo, mas quieta.

Com os olhos fixos nela, ensaiei alguns passos para longe do barco... e não havendo reação aparente, me aventurei um pouco mais além, até achar que a distância era boa... ali deixei a vasilha, com a comida. Voltei lentamente para a canoa e me sentei. A .380 ao alcance da mão.

Levou muito tempo, mas parece que o cheiro da comida acabou batendo no focinho da família loba. Primeiro os filhotes, depois, bastante relutante e sem tirar os olhos de onde eu estava, a mamãe-loba também chegou até lá. Só comeu um pouco depois que os filhotes mais brincavam do que comiam... E se foram. Nunca mais os vi.

Minutos depois, já no rio, navegando sempre... seguia absorto em muitos pensamentos... Os animais nos ensinam muitas lições, pena que nem todos prestam a atenção a elas...

Uma loba, uma onça... só tem sentido livres, em seu mundo... sem grades ou grilhões. São belas e fascinantes em sua selvagem forma de ser, não foram feitas para serem domadas, apropriadas, tornadas objeto de ninguém. Se burramente insistimos em pensar domesticá-las, mais hoje, mais amanhã, nos atacarão com garras e dentes... não raro, pelas costas... as feridas costumam ser grandes e doloridas... as marcas ficam para sempre... Esse conceito também se aplica à mulher bonita e de personalidade, ora se não se aplica... também foram feitas para serem livres...

Um homem que consegue compreender e praticar isto, tem até a chance de conviver por poucos ou muitos... momentos... dias, meses, anos, décadas?... com uma tigresa ou loba... mas jamais a terá... não no sentido de posse, de sua... e é assim que deve ser mesmo. Está aí o fascínio a ser conquistado. Ela vem, quando e se quiser... e vai, também quando e se quiser. O que fica? O prazer de existir além do comum, do trivial, do vulgar. Acham pouco? Então tentem ser (e deixar ser) livres. É possível sim, acreditem!

Navegar, de dia ou de noite, com sol, lua ou chuva batendo no rosto... sem pressa de horários... sem pouso fixo... sem lugares ou esperas... convivendo e vivendo natureza... sem medo da vida ou mesmo da morte. Isso é privilégio de poucos. É como a loba do Araguaia...

Ao amanhecer, a chuva havia ido, deixando um céu azul, prenúncio de dia quente, cheio de sol... já nem me lembrava mais da loba... só vim pensar nisso hoje, tanto tempo depois... mas poderia jurar que a vi "sorrir", quando se foi...


por: A.Coutinho

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