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Opinião


Crônicas, matérias, textos...
Coisas lembradas, histórias, Araguaia.
29/07/2013 10:41:24
O grande gato fixava um ponto qualquer fora do meu alcance visual. De onde eu estava, na canoa e um pouco afastado da margem do rio, não era possível ver o que estava a prender a atenção do belo animal... do outro lado de uma duna de areia fina...

Mas havia algo lá e o momento era mágico. Esqueci minha pesca para concentrar toda a atenção no que poderia terminar em alguma ação. Se o felino tomara conhecimento de minha presença eu não saberia dizer; eu não era objeto de seu interesse.

Quanto tempo transcorreu? Não tenho a menor ideia... pode ter sido alguns minutos ou quase uma eternidade. O tempo, na beira do Araguaia é fator secundário... conta pouco.

E foi assim que ocorreu a explosão. Uma explosão de músculos, agilidade e vigor físico. A Onça Pintada se moveu com rapidez impressionante, e só então pude ver, de relance, o que a interessara tanto.

Eram três ou quatro Capivaras, que possivelmente deveriam estar a pastar ou simplesmente se aquecendo ao sol da manhã... vislumbrei quase que apenas a sombra delas, escura, quase atropelando-se rumo ao relativo abrigo da água do rio.

Sim, relativo... porquanto o gato foi atrás. Sumiu por traz da duna e atravessou o pequeno campo de visão da beira do rio, uma sombra também escura com reflexos dourados no pelo fulvo e felino. Mergulhou imediatamente atras das Capivaras.

Foram segundos, quase minuto... e já me questionava se de fato eu vira aquilo... quando o "camisa de chita" ressurgiu, buscando a areia firme...

Na bocarra, trazia firme uma das Capivaras, grande, possivelmente bem pesada, presa pela parte posterior da cabeça graúda. Aparentemente a presa já estava morta.

Saiu, e com uma facilidade de impressionar, se foi pela folhagem impenetrável, além dos limites da areia da praia, carregando seu belo "almoço". A tranquilidade voltou ao rio.

Ainda fiquei ali por alguns instantes. Quieto... ouvindo apenas o barulho das águas e do meu coração algo descompassado pelo inusitado da cena.

Era a violência bruta da natureza... o curso natural da vida... a escala real das coisas. Nada mais que isto. E no entanto, para nós, humanos, soa negativamente... impressiona a retina... violenta a alma.

Inevitável pensar... porque não olhamos a violência com naturalidade? Porque ela, violência, nos agride? Não deveria. Talvez... e essa é uma das possibilidades, não nos agrade muito "olhar o espelho", notadamente quando o que vemos não nos pareça belo ou coerente com o ideal sonhado.

Explica? Justifica? Não sei... mas reconheçamos, é uma possibilidade... porque não?

Dei partida no motor e tomei o rumo do meu pequeno acampamento. Iria pescar sardinhas, lá mesmo... na aguada do meu pequeno reino. O almoço de hoje prenunciava-se fraco... mas parte do apetite também já se fora...

Em algum lugar do meu pensamento surgiu uma imagem qualquer... saudades, coisas lembradas... gentes, talvez um dia queridas... histórias... Araguaia.


por: A.Coutinho

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