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Opinião


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Como nasce um grande amor...
30/08/2013 11:54:23
Meu primeiro contato com a região do Araguaia se deu em outubro de 1972, quando me aventurei em uma viagem ao longo da rodovia Belém-Brasília, sozinho, em um Alfa Romeo 1968, o antigo modelo conhecido como JK.

Nessa ocasião, a rodovia ainda estava em fase de pavimentação, com alguns trechos em obras e outros na pura terra mesmo. Ocorre que, tendo encontrado um conhecido de Juiz de Fora, Minas, que trabalhava nas obras da CBPO, no trecho Alvorada a Gurupi (hoje Estado do Tocantins), acabamos por participar de uma pescaria no rio Formoso, afluente do braço menor do Araguaia, o Javaés.

Foi uma loucura... nunca havia visto na minha vida peixes de tamanho sequer parecido com os que pescamos. Fiquei fascinado com a riqueza e biodiversidade da região. Começava algo que, bem mais tarde, iria se transformar no amor da minha vida.

Sete anos após, em meados de 1979, conheci o Araguaia propriamente dito, no local onde recebe as águas do rio do Peixe, conhecido como "Ranchão da Viúva". Também de carona em uma pescaria, apreciei muito mais o panorama oferecido pelo rio do que a abundância de peixes, que na verdade dava era uma trabalheira enorme.

Ocorre que a turma, umas 8 pessoas além de mim, foram ao lugar atraídos por notícias a respeito de um cardume de Piau-cabeça-gorda, que estaria estacionado no local. Era verdade. Nunca vi pegarem tanto peixe... e a limpeza, é claro, sobrava para os caronas, eu e um Amigo de trabalho. O objetivo deles era vender peixes em Brasília. A pescaria mesmo, detestei.

Daí para frente comecei a pescar para valer, porém, por puro esporte. Adquiri uma Chevrolet Veraneio bem conservada, comprei uma canoa pequena, um motor de popa e fui juntando tralha... Cheguei a ter um bom equipamento para pesca, que ficava sempre pronto para utilização... e como foi utilizado. Daí, nasceram grandes amizades, compartilhou-se momentos de companheirismo e alegria... Wilson Henrique, Galiano, Miguel, Neri, Fausto, Nelson, Acácio, Gilson, Romeu, Neto, Coqueiro, João, Flávio... alguns já idos, outros ainda vivos... e alguns ainda companheiros de pesca até hoje!

A paixão pelo Araguaia brotou em uma viagem que fiz em 1980, logo após a grande cheia que até hoje não foi superada. Nessa ocasião, conhecemos o rio Cristalino onde acabamos pescando em uma pequena lagoa que parecia um local de sonho; um verdadeiro santuário. Ali, conheci e pesquei os maiores Tucunarés de que tenho notícias, Pintados, Pirararas, Pirarucus. Voltei inúmeras vezes.

Mas foi no retorno dessa primeira viagem, ao chegar na barranca do Araguaia por volta de 3 horas da madrugada que presenciei um nascer de sol como jamais vi igual. Chegamos e não havia como atravessar, pois a balsa só começava a funcionar às 6 horas da manhã. O jeito era esperar...

Em redes e até na própria Veraneio, nos ajeitamos e tiramos um cochilo... só que o calor intenso e algum mosquito acabaram por me irritar ao ponto de largar o conforto do improvisado "acampamento" e ir para a beira do rio, onde me sentei na areia da barranca mesmo e lá fiquei, curtindo o silêncio, entre um pito e outro e ocasionais lambadas de boa pinga.

Assim o dia me encontrou... boquiaberto com a beleza composta por uma manhã digna da obra prima que jamais artista algum pintou. A ligeira claridade inicial... por trás do pequeno povoado adormecido... foi o início.

Daí em diante, era uma sucessão de cenas que me ficaram na retina e me acompanham até hoje. O rio imenso, descendo lento, pesadão, as águas quase um espelho... que Botos, vez por outra, quebravam em arfar que deixava círculos irregulares e concêntricos...

E o céu que se tingia em tons de rosa, vermelho, laranja e ouro... a medida que a claridade se expandia e, mais tarde, o sol sorria para o dia que chegava. O azul belo e profundo, que ia clareando até um tom intenso e límpido, luminoso mesmo...

Os Patos, Marrecos, Garças, Maguaris... Araras, Tucanos, Papagaios... aves de todas as cores e tons possíveis ou imagináveis... Vez por outra, um peixe qualquer rebojava, caçando peixinhos nas beiras, numa explosão de vida e atividades insuspeitadas...

Era o Araguaia em toda a sua plenitude, se mostrando qual fêmea no cio... beleza, sensualidade, atração irresistível... me apaixonei. O resultado? Dez anos após essa madrugada de sonho e mistério eu me mudava, com mala, bagagem, coragem e cachorro para a região.

No início pensava em residir nas beiras do rio mesmo. Mas ao chegar acabei mudando de ideia e me fixando na sede do município de São Miguel, que fica a 45 km de distância do "Corguinho". Começava uma nova etapa de vida... com alegrias, tristezas, muita luta pela sobrevivência, competição selvagem pela vida... o inferno habitual, revivido. Mas isto é outra história.

Assim surgiu um "romance" que um dia talvez se transforme em lenda nas beiras desse rio belo e generoso. Rendeu um poema, um livro, alimentou sonhos, mudou uma vida. Caso de amor, não há como ser explicado, nem compartilhado... só pode ser vivido. Este é um caso de amor entre uma criança aventureira que se recusou a "crescer" e um rio que teima em não morrer. Araguaia, assim nasceu um grande amor.


por: A.Coutinho

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